Além dos metros quadrados: por que uma casa grande pode parecer pequena (e vice-versa)
Uma família de quatro pessoas vive em 150 m² e sente que não são suficientes; tem certeza de que precisa de uma casa maior.
Outra família, também de quatro pessoas e com hábitos semelhantes, vive bem em 110 m².
O que torna cento e dez metros quadrados suficientes e cento e cinquenta insuficientes? É claro que fatores como a idade dos filhos, os hábitos familiares, a distribuição interna dos ambientes, o tempo passado em casa, entre outros, influenciam diretamente o resultado.
Para compreender melhor a diferença entre essas duas famílias, podemos utilizar três conceitos da psicologia ambiental: densidade/crowding, privacidade e territorialidade.
Densidade e crowding
Em 1972, o pesquisador americano Stokols separou pela primeira vez dois conceitos que ainda hoje são frequentemente confundidos: a densidade habitacional e o crowding.
A densidade habitacional é um parâmetro objetivo e mensurável — um número — obtido pela relação entre as pessoas que frequentam um ambiente e a área disponível; seu inverso é a quantidade de metros quadrados disponíveis por pessoa naquele ambiente.
O crowding, por outro lado, é uma sensação subjetiva que surge quando uma pessoa sente que precisa de mais espaço do que tem à disposição; quando, em outras palavras, se sente “apertada” em um ambiente.
É possível ter uma densidade baixa com uma forte sensação de aglomeração ou, ao contrário, uma densidade alta sem sofrer de crowding.
Quando percebido de forma contínua, o crowding tem um custo social elevado, que muitas vezes se traduz em irritabilidade generalizada — causada pelo próprio espaço e erroneamente atribuída ao estresse ou a outros motivos. Do ponto de vista fisiológico, os efeitos também são negativos e verificáveis: aumento da pressão arterial, elevação do cortisol, tensão e sinais de nervosismo e, a longo prazo, sintomas mais graves, como diminuição do contato visual, distanciamento entre as pessoas e redução das interações sociais, inclusive com os próprios familiares, podendo chegar ao isolamento social.
Na família, onde a partilha do espaço e a sobreposição de funções em um mesmo ambiente são inevitáveis, a sensação de crowding se entrelaça com os conceitos de privacidade, territorialidade e microterritórios.
Privacidade: regular as interações
Segundo o psicólogo social Altman, a privacidade é um processo dinâmico de regulação do acesso a si: a possibilidade de uma pessoa escolher, a cada momento, quanto se abrir às interações com os outros e quanto se isolar. Um ambiente construído de qualidade é aquele que consegue acompanhar essa variação.
Territorialidade e espaços próprios
A territorialidade, por sua vez, diz respeito à apropriação e à regulação do uso de lugares aos quais atribuímos significado: a maneira como sentimos um espaço como nosso e estabelecemos como utilizá-lo e compartilhá-lo com os outros. Por exemplo, uma escrivaninha pode ser “nosso lugar” mesmo que esteja em um cômodo compartilhado. Altman define a casa como “território primário”, ou seja, o espaço com o qual construímos identidade e sensação de segurança. Dentro de um território primário compartilhado, como o ambiente doméstico, cada pessoa sente a necessidade de criar e reconhecer seus próprios subterritórios. Eles estão presentes em todas as casas: o quarto dos filhos, o lado da cama em que sempre dormimos, o lugar de cada membro da família à mesa, a gaveta ou o “nosso” lado do armário compartilhado, a poltrona que continua sendo “de alguém” mesmo quando está vazia.
Privacidade e territorialidade estão conectadas, mas não são a mesma coisa. Ter uma estação de trabalho reconhecida como sua — um subterritório — não garante poder trabalhar sem interrupções, com privacidade. Da mesma forma, um cômodo compartilhado pode permitir momentos de privacidade por meio de uma combinação de organização espacial e acordos entre os ocupantes.
Das necessidades ao projeto
Do ponto de vista do projeto, as consequências desses três conceitos são muito relevantes. Antes de tudo, é preciso ressaltar que a distinção entre crowding, privacidade e territorialidade não reduz a importância das dimensões físicas mínimas. A área disponível continua tendo um papel fundamental na arquitetura de interiores, mas, nesse contexto, a possibilidade de utilizar os espaços de acordo com as necessidades dos clientes se torna igualmente importante.
Do ponto de vista projetual, é necessário fazer ainda outra distinção: definir uma área e proteger uma atividade são operações diferentes, que podem exigir ferramentas distintas. Definir uma área significa tornar sua função reconhecível por meio de limites; proteger uma atividade significa criar condições para que ela aconteça sem interferências. Um tapete e uma poltrona podem identificar um canto de leitura dentro da sala, deixando claro o uso daquela área, mas não protegem a atividade: não impedem que o som da televisão ou a passagem de pessoas incomodem quem está lendo. Proteger essa mesma atividade exige outras ferramentas, como aumentar a distância da principal fonte sonora, posicionar o assento fora do trajeto de circulação ou até introduzir um elemento físico que interrompa a propagação direta do som, além de utilizar materiais e texturas que contribuam para absorver as ondas sonoras. Antes de definir como delimitar um espaço, é necessário, portanto, entender qual necessidade essa delimitação deve atender. Em alguns casos, bastará tornar uma área reconhecível; em outros, será preciso protegê-la de olhares, ruídos ou da passagem de pessoas.
A escolha projetual exige, portanto, uma avaliação conjunta de conexão e separação, criando uma correspondência entre necessidades e limites. Conforme as necessidades dos usuários, o projeto pode integrar configurações sociopetais, que favorecem a conversa e a interação, e configurações sociofugais, que permitem maior afastamento do contato direto. Uma análise cuidadosa das atividades e das relações permite graduar abertura e separação e identificar as ferramentas adequadas. A qualidade do projeto de interiores também se mede pela possibilidade que oferece às pessoas de escolher como usar o espaço e regular sua participação na vida compartilhada.